sexta-feira, outubro 30, 2009

De onde está



Com passos em silêncio de chuva-verão-tempestade-sônica, dançamos num salão bem protegido do frio provisório; ninguém me lembra do que eu sou, estamos fora de contexto, estamos numa ilha de frio, uma ilha de tempo, aproveitamos com nossos corpos, antes que nosso calor seja menor do que aquele que ainda não vem de fora. Tomamos café, porque não é tempo de cerveja, apenas uma xícara, porque quando vier a próxima já não combinará com o tempo, e somos amigos, senão minha presença não seria um acaso pretendido. Isso não contradiz os nossos corpos estarem eriçados, com nossos pêlos como último alcance dessa energia. E isso não contradiz eu te pegar com meus músculos hipotróficos enrijecidos. Busco tua saliva, antes que eu tenha apenas teu suor. Mas é de tempo, e por ser de tempo a gente não pára. São 19 e 30. No verão. Vou falar dessa vez pra você saber. E não fale, que não é de perder. Ah, não! Eu quero o salão, a percussão volta a trazer teu corpo e teu coração batendo e o bandolim no repassar de nossos cabelos. Sax? Não, tenho todos os metais, quase surdo, para que termine o som, e assim nossa canção.

Os tempos são difíceis, amparo no factóide, cumpro horários, talho o elixir da vida, estou ao lado daqueles que mórbidos necessitam de um pouco da vida que apalpamos em nossos poucos encontros e daquela que apalpamos em outros lugares em que nosso relato fica guardado para nunca ser dito inteiramente.

Augusto, 79 anos de idade, faleceu. Ouvi o choro de seus próximos. Era bastante grave, mas para os parentes e amigos a sua morte é uma surpresa. É quase uma festa do fim, penso sobre o que viveu, era um tipo bastante comedido e imagino que era uma espécime de artesão rotineiro. Alguém que era de esperança e de acordar cedo. "Os exagerados morrem jovens", alguém diz. A metáfora de uma vida comparada a uma garrafa seria injusta com aqueles que a bebem muito. Quando será a próxima vez? Porque depois de tentar reanimar um morto, quero um corpo com vida para bebermos exageradamente. Não há resposta. Subo a rua à pé e anêmico, pronto para beber sangue. Tinto. Amarro-me no silêncio, não quero ninguém, duvido da dança, a memória daquela ilha perde provisoriamente o sentido, abdico, escolho não escolhendo, prefiro não querendo, concorre a tua vida e a minha, e eu estou feliz por esta existência.

http://www.youtube.com/watch?v=CYfKrct68JU
http://www.youtube.com/watch?v=ytudwqKuc4s
http://www.youtube.com/watch?v=N-mqhkuOF7s&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=jc3ZAs17uAg&feature=related
 
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